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Tuítes de Elon Musk 2015-2017

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  • Fonte e formato: os tuítes do próprio Musk em 2015, 2016 e 2017, os três anos que vêm depois de Tuítes de Elon Musk 2010-2014, tirados do arquivo cmj/elontweets no GitHub. Os três anos formam uma só época porque são um único movimento contínuo. A preocupação com os riscos da IA, que em 2012-2014 ele só lia a respeito, vira nesta janela uma campanha pública organizada: cartas abertas, OpenAI, Neuralink, o argumento da regulação. Os fios mais antigos, de Marte, da sustentabilidade e dos primeiros princípios, continuam endurecendo ao lado. Só entram os tuítes que o próprio Musk escreveu; retuítes e falas de terceiros embutidas ficam de fora.
  • O arco: se 2010-2014 é quando Musk encontra seus temas, 2015-2017 é quando ele age sobre o maior deles. O risco da IA deixa de ser lista de leitura e vira infraestrutura. Ele assina e amplifica a carta de segurança do FLI (jan. de 2015) e a carta contra armas autônomas (jul. de 2015), diz que está financiando pesquisa em segurança e cofunda a OpenAI (dez. de 2015) como resposta ao “controle… por um pequeno número de humanos” (jun. de 2016). Ele planta a Neuralink como a salvaguarda da “simbiose” entre cérebro e máquina (de jun. de 2016 a abr. de 2017). Entre agosto e novembro de 2017, já firmou as duas frases que vai repetir por anos: “muito mais risco do que a Coreia do Norte” e que a IA “deveria ser” regulada “como fazemos com comida, remédios, aviões e carros”. Em paralelo, a hipótese da simulação pela qual ele é famoso aparece em forma de tuíte (“São simulações até o fim”, jun. de 2016), e o imperativo de sobrevivência em Marte se afia numa doutrina baseada no paradoxo de Fermi (“o número de civilizações de um planeta só extintas provavelmente supera o de civilizações vivas em… mil para um”, mar. de 2017). A única posição que se mexe visivelmente dentro da janela é a política. A defesa, em fevereiro de 2017, de aconselhar Trump (“continuar engajado, mais moderados e não menos”) dá lugar, quatro meses depois, à renúncia por causa de Paris (jun. de 2017), o ato de convicção que define a época.
  • Nível de confiança: verificada. Um arquivo verificado dos tuítes dele; um tuíte é a sua própria citação.
  • Citações: cada tuíte aponta para o seu post no X. Só são citados posts originais do próprio Musk: nada de retuítes nem do texto de posts alheios que ele compartilhou.
  • Atribuição. Toda citação é um tuíte original de Musk, conferido com a data e o post certos. Nenhuma é retuíte, e nenhuma é tuíte de outra pessoa atribuído a Musk. O único tuíte que traz outra voz, a máxima de Atatürk (“Se um dia as minhas palavras forem contra a ciência, escolha a ciência”), é um tuíte do próprio Musk endossando a frase, citado inteiro com a atribuição exatamente como ele postou, e não uma fala de um desconhecido passada como dele. Várias citações são respostas: a de Zuckerberg e o “entendimento técnico profundo”, as trocas com Sean Carroll sobre a estabilidade da vida e sobre Europa, o “controle… por um pequeno número de humanos” para @lessteza e a resposta “São simulações até o fim”. Cada uma é o texto da resposta do próprio Musk, citado a partir da menção com @.

Resumo

É aqui que a voz inicial dos tuítes de Tuítes de Elon Musk 2010-2014 vira um programa. Os anos de 2010-2014 flagraram crenças se formando; estes três flagram a mais importante delas sendo transformada em instituições. Quase tudo nos três anos fica de fora: atualizações de lançamento, brincadeiras sobre produtos, links de notícias e logística não dizem nada sobre a cabeça dele e não são citados. O que sobrou é o registro datado de Musk transformando o medo da IA em organizações, e das visões metafísica e política pelas quais ele ainda é mais citado ganhando forma pública.

A história dominante é o risco da IA virando operação. Em 2012-2014, era uma anotação de leitura que endurecia até virar “mais perigosa que armas nucleares”. Aqui ela ganha maquinário. Janeiro de 2015 abre com ele amplificando a carta aberta do Future of Life Institute e, dias depois, dizendo que está “financiando pesquisa em segurança de inteligência artificial”. Em julho, ele empurra a carta contra armas autônomas e enuncia o núcleo da precaução: “Mesmo que seja inevitável, deveríamos ao menos tentar adiar a chegada das armas de IA. Mais cedo não é melhor.” Dezembro de 2015 é o marco, a fundação da OpenAI. Em meados de 2016, ele já deu nome ao medo específico por trás dela: não só uma IA fora de controle, mas “o controle de uma IA superpoderosa por um pequeno número de humanos”. No mesmo ano, propõe a salvaguarda do lado humano que vira a Neuralink: “Criar uma neural lace é o que realmente importa para a humanidade alcançar a simbiose com as máquinas.” O ano de 2017 fecha o arco com as duas frases mais citadas sobre regulação, ditas com poucos meses de diferença: “Muito mais risco do que a Coreia do Norte” e a analogia com a FAA e a FDA. Junto vêm a previsão da Terceira Guerra Mundial e o modelo da “dupla exponencial”, que explica por que ele acha que a intuição subestima a velocidade de tudo isso.

O Musk metafísico também aparece em forma de tuíte. A hipótese da simulação, com a qual ele é mais associado, é dita sem rodeios (“São simulações até o fim”, junho de 2016) e depois argumentada: ele oferece a velocidade da luz como indício e sugere que os níveis aninhados da realidade talvez fiquem “menos interessantes” quanto mais se sobe. O raciocínio do paradoxo de Fermi e de Marte se afia de uma divagação de 2015 sobre “cadê os alienígenas?” até a doutrina de sobrevivência de 2017, a de que as civilizações de um planeta só quase sempre se extinguem, a base intelectual do seu imperativo multiplanetário. A preocupação com o colapso populacional também aparece aqui pela primeira vez (“As consequências da implosão populacional são muito subestimadas”, 2016).

A mudança mais clara dentro da janela é política. Em fevereiro de 2017, ele defende participar por dentro: continua nos conselhos consultivos de Trump porque “Ativistas deveriam estar pressionando para que mais moderados aconselhem o presidente, não menos”, e “Prefiro fazer o que acredito ser certo a fazer o que parece certo só para evitar críticas”. Quatro meses depois, o mesmo raciocínio produz o ato oposto. Em 1º de junho de 2017, ele renuncia por causa da saída do Acordo de Paris (“A mudança climática é real. Sair de Paris não é bom para a América nem para o mundo”). Nesta época, o princípio que o mantém à mesa é o mesmo que acaba o fazendo sair dela.

Vários desses tuítes são previsões datadas e passíveis de refutação: “Ampliando a equipe de software do Autopilot na Tesla para alcançar autonomia total generalizada” (2015), “Passagens para hotéis em órbita, para a Lua e para Marte vão custar bem menos do que as pessoas pensam” (2016), a competição nacional por IA como “causa mais provável da Terceira Guerra Mundial” (2017). São leituras com data e hora do otimismo e do alarme dele.

Tuítes principais

Risco da IA: das cartas abertas (2015) à OpenAI (2015) e ao argumento da regulação (2017)

O fio central destes anos. 2015 abre com o tema virando defesa organizada. Ele amplifica a carta de segurança do Future of Life Institute e, dias depois, diz que está financiando o trabalho do próprio bolso, com o humor sombrio com que costuma embrulhar o medo:

“World’s top artificial intelligence developers sign open letter calling for AI safety research:” ↗

“Os principais desenvolvedores de inteligência artificial do mundo assinam carta aberta pedindo pesquisa em segurança de IA:”

“Funding research on artificial intelligence safety. It’s all fun & games until someone loses an I” ↗

“Financiando pesquisa em segurança de inteligência artificial. Tudo é diversão e brincadeira até alguém perder um I” (trocadilho: “eye” é olho, e o “I” também é o de “AI”)

O modelo dele da ameaça real como algo em rede e sem corpo, e não um robô humanoide, dito sobre Ex Machina:

“Worth watching @ExMachinaMovie. The AI would be in the network, not the robot, but otherwise good.” ↗

“Vale assistir @ExMachinaMovie. A IA estaria na rede, não no robô, mas fora isso é bom.”

Em meados de 2015, a defesa chega às armas autônomas, e ele expõe sua postura de precaução da forma mais direta: adiar mesmo que se ache inevitável.

“If you’re against a military AI arms race, please sign this open letter:” ↗

“Se você é contra uma corrida armamentista militar de IA, por favor assine esta carta aberta:”

“Even if inevitable, we should at least attempt to postpone the advent of AI weaponry. Sooner isn’t better.” ↗

“Mesmo que seja inevitável, deveríamos ao menos tentar adiar a chegada das armas de IA. Mais cedo não é melhor.”

Aí vem o marco, 11 de dezembro de 2015: a fundação da OpenAI como a resposta institucional dele ao risco.

“Announcing formation of @open_ai …” ↗

“Anunciando a criação da @open_ai…”

E o argumento inicial da democratização que ele associa a ela: a IA aberta e amplamente compartilhada que move a OpenAI nesse período, posição da qual ele depois se afasta.

“Would like to thank @nvidia and Jensen for donating the first DGX-1 AI supercomputer to @OpenAI in support of democratizing AI technology” ↗

“Quero agradecer à @nvidia e ao Jensen por doarem o primeiro supercomputador de IA DGX-1 à @OpenAI, em apoio à democratização da tecnologia de IA”

Ao longo de 2016, ele continua alimentando o modelo da decolagem exponencial. Reposta o ensaio do Wait But Why e lê o resultado do AlphaGo como a IA chegando mais rápido do que os especialistas previam.

“Worth reposting the Wait But Why piece on AI. We are at the beginning of exponential growth in digital intelligence.” ↗

“Vale repostar o texto do Wait But Why sobre IA. Estamos no começo do crescimento exponencial da inteligência digital.”

“Congrats to DeepMind! Many experts in the field thought AI was 10 years away from achieving this.” ↗

“Parabéns à DeepMind! Muitos especialistas da área achavam que a IA estava a 10 anos de conseguir isso.”

Uma resposta mostra o quanto ele leva isso a sério. Ele tem aulas semanais com os melhores pesquisadores e diz isso enquanto discorda em público dos otimistas da IA:

“Zuck doesn’t (yet) have a deep tech understanding of AI. I spend hours every week being educated by world’s best researchers.” ↗

“O Zuck não tem (ainda) um entendimento técnico profundo de IA. Eu passo horas toda semana recebendo aulas dos melhores pesquisadores do mundo.”

A formulação mais afiada de qual medo da IA move a OpenAI, não só a IA fora de controle, mas a concentração do poder da IA, vem numa resposta de junho de 2016:

“control of super powerful AI by a small number of humans is the most proximate concern” ↗

“o controle de uma IA superpoderosa por um pequeno número de humanos é a preocupação mais imediata”

Um alerta precoce sobre a manipulação do ecossistema de informação por IA:

“Only a matter of time before advanced AI is used to do this. Internet is particularly susceptible to a gradient descent algo.” ↗

“É só questão de tempo até a IA avançada ser usada para isso. A internet é particularmente suscetível a um algoritmo de gradiente descendente.”

Em 2017, a campanha endurece nos dois argumentos que ele repete por anos. Ele endossa os princípios de Asilomar e depois diz que uma IA segura é questão existencial:

“Top AI researchers agree on principles for developing benefical AI” ↗

“Os principais pesquisadores de IA concordam sobre princípios para desenvolver uma IA benéfica”

“Yes, I believe that is critical to ensure a good future for humanity” ↗

“Sim, acredito que isso é crucial para garantir um bom futuro para a humanidade”

Ele separa o risco profundo da IA da mera automação de empregos, delimitando exatamente o que o preocupa, e oferece o modelo da “dupla exponencial” para explicar por que a intuição o subestima:

“Deep AI is the real risk, though, not automation.” ↗

“Mas o risco de verdade é a IA profunda, não a automação.”

“we actually face a double exponential rate of improvement. AI hardware & software are both exponential.” ↗

“Na verdade, enfrentamos uma taxa de melhora de dupla exponencial. O hardware e o software de IA são ambos exponenciais.”

Em agosto de 2017 vêm os alertas mais citados dele. Ele põe a IA acima das ameaças nucleares geopolíticas, faz o argumento da regulação e oferece uma teoria de por que os especialistas minimizam o perigo:

“If you’re not concerned about AI safety, you should be. Vastly more risk than North Korea.” ↗

“Se você não se preocupa com a segurança da IA, deveria. Muito mais risco do que a Coreia do Norte.”

“Nobody likes being regulated, but everything (cars, planes, food, drugs, etc) that’s a danger to the public is regulated. AI should be too.” ↗

“Ninguém gosta de ser regulado, mas tudo (carros, aviões, comida, remédios etc.) que representa perigo para o público é regulado. A IA também deveria ser.”

“Biggest impediment to recognizing AI danger are those so convinced of their own intelligence they can’t imagine anyone doing what they can’t” ↗

“O maior obstáculo para reconhecer o perigo da IA são aqueles tão convencidos da própria inteligência que não conseguem imaginar alguém fazendo o que eles não conseguem”

A formulação do melhor ou pior (citando Life 3.0, de Tegmark) e a previsão da Terceira Guerra Mundial, com a virada de que quem a começa pode ser uma IA, e não um país:

“AI will be the best or worst thing ever for humanity, so let’s get it right.” ↗

“A IA será a melhor ou a pior coisa que já aconteceu para a humanidade, então vamos acertar.”

“Competition for AI superiority at national level most likely cause of WW3 imo.” ↗

“A competição pela superioridade em IA em nível nacional é a causa mais provável da Terceira Guerra Mundial, na minha opinião.”

“May be initiated not by the country leaders, but one of the AI’s, if it decides that a prepemptive strike is most probable path to victory” ↗

“Pode ser iniciada não pelos líderes dos países, mas por uma das IAs, se ela decidir que um ataque preventivo é o caminho mais provável para a vitória”

E, em novembro de 2017, a retomada do argumento da regulação com a analogia da FAA, a posição visivelmente mais dura:

“Got to regulate AI/robotics like we do food, drugs, aircraft & cars. Public risks require public oversight.” ↗

“Temos que regular IA e robótica como fazemos com comida, remédios, aviões e carros. Riscos públicos exigem fiscalização pública.”

Por baixo do alarme corre a salvaguarda. Em junho de 2016, a ideia de interface cérebro-máquina que vira a Neuralink aparece na sua primeira forma de tuíte:

“Creating a neural lace is the thing that really matters for humanity to achieve symbiosis with machines” ↗

“Criar uma neural lace é o que realmente importa para a humanidade alcançar a simbiose com as máquinas”

Em março de 2017, ele a liga diretamente ao risco existencial e, em abril, resume a ideia de fusão numa frase só:

“Long Neuralink piece coming out on @waitbutwhy in about a week. Difficult to dedicate the time, but existential risk is too high not to.” ↗

“Um texto longo sobre a Neuralink sai no @waitbutwhy em cerca de uma semana. Difícil dedicar o tempo, mas o risco existencial é alto demais para não fazer isso.”

“That is the aspiration: to avoid AI becoming other.” ↗

“Essa é a aspiração: evitar que a IA se torne um ‘outro’.”

Hipótese da simulação: enunciada e depois argumentada (2016-2017)

A crença metafísica com a qual ele é mais associado ganha forma de tuíte aqui. Primeiro ele a enuncia sem rodeios, depois a argumenta com física e depois a desenvolve até o quadro dos níveis aninhados:

“It is simulations all the way down” ↗

“São simulações até o fim”

“Will try out @NoMansSky this weekend. Maybe reality is just a series of nested simulations all the way down …” ↗

“Vou experimentar o @NoMansSky neste fim de semana. Talvez a realidade seja só uma série de simulações aninhadas até o fim…”

“I agree. Speed of light is a point in favor of the sim.” ↗

“Concordo. A velocidade da luz é um ponto a favor da simulação.”

“So far, even our primitive sims are often more entertaining than reality itself.” ↗

“Até agora, até as nossas simulações primitivas costumam ser mais divertidas do que a própria realidade.”

Ela também aparece como um item do seu cardápio de respostas ao paradoxo de Fermi, e como a regra de bolso, meio de brincadeira, do “desfecho mais divertido” que ele associa a ela:

“Either that, simulation, great filter or they are very, very subtle.” ↗

“Ou isso, ou simulação, ou grande filtro, ou eles são muito, muito sutis.”

“It does often seem that the most entertaining belief or outcome is the most likely to prevail” ↗

“Muitas vezes parece mesmo que a crença ou o desfecho mais divertido é o que tem mais chance de prevalecer”

Marte e o paradoxo de Fermi: o imperativo de sobrevivência se afia (2015-2017)

O caso de Marte aqui é cada vez mais argumentado a partir do paradoxo de Fermi. Começa em 2015 com o simples enigma do “cadê os alienígenas?” e com a visão contrária à corrente de que a vida primitiva é comum e a inteligência é rara:

“Seems like an opportune moment to bring up the Fermi Paradox, aka “where are the aliens?” Really odd that we see no sign of them.” ↗

“Parece um bom momento para tocar no paradoxo de Fermi, ou seja, ‘cadê os alienígenas?’ É muito estranho que não vejamos nenhum sinal deles.”

“No way. Look at chemotrophs and extremophiles. Primitive life is bloody everywhere. Highly under the ice on Europa imo.” ↗

“Nem pensar. Olha os quimiotróficos e os extremófilos. Vida primitiva tem pra caramba por todo lado. Muito provável debaixo do gelo de Europa, na minha opinião.”

Por baixo há uma preocupação com a fragilidade existencial, a de que a vida avançada tende a se destruir, o que alimenta direto a urgência de se tornar multiplanetário:

“Am concerned that advanced life may be inherently unstable. Arguably, any civ capable of extinguishing itself eventually will.” ↗

“Me preocupa que a vida avançada possa ser inerentemente instável. É defensável dizer que toda civilização capaz de se extinguir, uma hora vai fazer isso.”

“Hence the urgency of making life as we know it multiplanetary as soon as possible” ↗

“Daí a urgência de tornar a vida como a conhecemos multiplanetária o mais rápido possível”

Sua previsão contra a corrente sobre o quanto o acesso ao espaço vai ficar barato:

“Tickets to orbital hotels, the moon and Mars will be a lot less than people think.” ↗

“Passagens para hotéis em órbita, para a Lua e para Marte vão custar bem menos do que as pessoas pensam.”

Em 2017, o argumento endureceu até virar a declaração canônica de sobrevivência, o raciocínio de Fermi transformado em doutrina, e o motivo da inspiração. Ele também faz algo característico: recusa-se a exagerar em favor da própria causa, desmontando o oba-oba em torno de um projeto de lei da NASA.

“Mars is critical for the long-term survival of humanity and life on Earth as we know it” ↗

“Marte é crucial para a sobrevivência a longo prazo da humanidade e da vida na Terra como a conhecemos”

“The number of extinct single planet civilizations probably exceeds live civs by at least a thousand to one. I’m being optimistic.” ↗

“O número de civilizações de um planeta só extintas provavelmente supera o de civilizações vivas em pelo menos mil para um. Estou sendo otimista.”

“It is high time that humanity went beyond Earth. Should have a moon base by now and sent astronauts to Mars. The future needs to inspire.” ↗

“Já passou da hora de a humanidade ir além da Terra. Já deveríamos ter uma base lunar e ter mandado astronautas a Marte. O futuro precisa inspirar.”

“Perhaps there will be some future bill that makes a difference for Mars, but this is not it.” ↗

“Talvez algum projeto de lei futuro faça diferença para Marte, mas esse não é ele.”

Sustentabilidade: subsídios, métricas do clima e a renúncia por causa de Paris (2015-2017)

O argumento climático dele continua partindo de primeiros princípios. Ele volta várias vezes ao subsídio aos combustíveis fósseis como a distorção central do mercado, e parte do ciclo do carbono para dizer o que realmente importa:

“Fossil fuels subsidised by $10m a minute, says IMF” ↗

“Combustíveis fósseis são subsidiados em US$ 10 milhões por minuto, diz o FMI”

“Global economy of $100T is overwhelmingly fossil fuel based, so IMF estimate of $5T or 5% for carbon subsidy is def right order of magnitude” ↗

“A economia global de US$ 100 trilhões é esmagadoramente baseada em combustíveis fósseis, então a estimativa do FMI de US$ 5 trilhões, ou 5%, de subsídio ao carbono está com certeza na ordem de grandeza certa”

“CH4 rapidly decays back to CO2 & is absorbed by plants. What matters is adding new carbon to surface cycle from underground oil, gas & coal.” ↗

“O CH4 volta rápido a CO2 e é absorvido pelas plantas. O que importa é adicionar carbono novo ao ciclo da superfície a partir do petróleo, do gás e do carvão que estão no subsolo.”

Ele repensa a métrica do clima do zero (o pico de temperatura, não a média), faz a defesa libertária de um imposto sobre carbono e transforma a briga dos subsídios numa questão de justiça:

“Great article by @BadAstronomer. Important to note max temp record. Too much attention on avg temp. Max matters most” ↗

“Ótimo artigo do @BadAstronomer. Importante notar o recorde de temperatura máxima. Atenção demais na temperatura média. A máxima é o que mais importa”

“The libertarian argument for a carbon tax” ↗

“O argumento libertário a favor de um imposto sobre carbono”

“Real fraud going on is denial of climate science. As for “subsidies”, Tesla gets pennies on dollar vs coal. How about we both go to zero?” ↗

“A fraude de verdade é a negação da ciência do clima. Quanto aos ‘subsídios’, a Tesla recebe centavos para cada dólar que o carvão recebe. Que tal os dois irem a zero?”

O ato que define a época em matéria de convicção climática: renunciar aos conselhos presidenciais por causa da saída do Acordo de Paris.

“Am departing presidential councils. Climate change is real. Leaving Paris is not good for America or the world.” ↗

“Estou saindo dos conselhos presidenciais. A mudança climática é real. Sair de Paris não é bom para a América nem para o mundo.”

Direção autônoma e túneis: previsões e a gênese da Boring (2015-2016)

O fio da autonomia ganha três marcos datados de 2015. Ele dá valor à liberdade humana de dirigir, prevê que a autonomia talvez um dia a proíba e declara abertamente o objetivo da autonomia total:

“To be clear, Tesla is strongly in favor of people being allowed to drive their cars and always will be. Hopefully, that is obvious.” ↗

“Para ser claro, a Tesla é totalmente a favor de as pessoas poderem dirigir seus carros e sempre será. Espero que isso seja óbvio.”

“However, when self-driving cars become safer than human-driven cars, the public may outlaw the latter. Hopefully not.” ↗

“No entanto, quando os carros autônomos ficarem mais seguros do que os dirigidos por humanos, o público pode proibir estes últimos. Espero que não.”

“Ramping up the Autopilot software team at Tesla to achieve generalized full autonomy.” ↗

“Ampliando a equipe de software do Autopilot na Tesla para alcançar autonomia total generalizada.”

O famoso alarmista da IA percebendo a tensão nas próprias posições quando o Autopilot vira alvo de ataques:

“Sure feels weird to find myself defending the robots” ↗

“É estranho mesmo me ver defendendo os robôs”

E o raciocínio de túneis contra carros voadores que planta a semente da Boring Company. Ele pensa no trânsito da cidade em termos de dimensões: ruas em 2D sob prédios em 3D. Depois vem o tuíte impulsivo de 2016 que dá início à empresa:

“Reasons I like tunnels: you still travel in 3D fast, but immune to weather, quiet and no risk cars fall on your head” ↗

“Motivos pelos quais eu gosto de túneis: você ainda viaja rápido em 3D, mas fica imune ao clima, é silencioso e não há risco de carros caírem na sua cabeça”

“Right move is try both tunnels and flying cars. Otherwise, having 2D streets and 3D buildings means bad traffic forever.” ↗

“O certo é tentar os dois, túneis e carros voadores. Do contrário, ter ruas em 2D e prédios em 3D significa trânsito ruim para sempre.”

“Traffic is driving me nuts. Am going to build a tunnel boring machine and just start digging…” ↗

“O trânsito está me deixando maluco. Vou construir uma máquina de perfurar túneis e simplesmente começar a cavar…”

Primeiros princípios aplicados à física, à avaliação de empresas e às evidências (2015-2017)

A voz que explica e exige evidências corre por todos estes anos. Ele parte da terceira lei de Newton para derrubar uma ideia errada, rejeita a pseudoarqueologia com um critério afiado do que conta como evidência e vê a física em termos de informação:

“Reason is Newton’s Third Law. In vacuum, there is nothing to “push” against. You must react against ejected mass.” ↗

“O motivo é a Terceira Lei de Newton. No vácuo, não há nada para ‘empurrar’. Você tem que reagir contra a massa ejetada.”

“Btw, please don’t mention the pyramids. Stacking stone blocks is not evidence of an advanced civilization.” ↗

“Aliás, por favor, não mencionem as pirâmides. Empilhar blocos de pedra não é prova de uma civilização avançada.”

“Interesting to think of physics as a set of compression algorithms for the universe. That’s basically what formulas are.” ↗

“Interessante pensar a física como um conjunto de algoritmos de compressão do universo. É basicamente isso que as fórmulas são.”

As regras dele para saber das coisas, resumidas: ir à fonte primária, pôr a ciência acima de qualquer autoridade, ele inclusive, e ajustar o quanto você acredita ao quanto há de evidência.

“Reading the source material is better than reading other people’s opinions about the source material” ↗

“Ler o material-fonte é melhor do que ler a opinião dos outros sobre o material-fonte”

““If one day, my words are against science, choose science.” Mustafa Kemal Atatürk” ↗

“‘Se um dia as minhas palavras forem contra a ciência, escolha a ciência.’ Mustafa Kemal Atatürk”

“So strange that people often believe things inversely proportionate to the evidence.” ↗

“É tão estranho que as pessoas muitas vezes acreditem nas coisas na proporção inversa da evidência.”

O argumento de primeiros princípios dele sobre avaliação de empresas (uma defesa da lógica de avaliação da Tesla que ele faz mais de uma vez) e a reutilização tratada como a norma obviamente correta:

“A stock price represents risk-adjusted future cash flows.” ↗

“O preço de uma ação representa fluxos de caixa futuros ajustados ao risco.”

“It’s starting to feel kinda normal to reuse rockets. Good. That’s how it is for cars & airplanes and how it should be for rockets.” ↗

“Está começando a parecer meio normal reutilizar foguetes. Bom. É assim com carros e aviões e é como deveria ser com foguetes.”

Política e liberdade de expressão: participar por dentro, e depois renunciar (2017)

A mudança política mais clara da época. Em fevereiro de 2017, ele defende continuar nos conselhos consultivos de Trump, um argumento de participar por dentro: decidir por princípio, e não pela aparência, manter mais moderados na sala, e não menos, e tratar o clima como a âncora moral.

“I’d rather do what I believe is right, than do what appears right simply to avoid criticism.” ↗

“Prefiro fazer o que acredito ser certo a fazer o que parece certo só para evitar críticas.”

“In addition, I again raised climate. I believe this is doing good, so will remain on council & keep at it. Doing otherwise would be wrong.” ↗

“Além disso, toquei de novo no clima. Acredito que isso está fazendo bem, então vou continuar no conselho e insistir. Fazer diferente seria errado.”

“Activists should be pushing for more moderates to advise President, not fewer. How could having only extremists advise him possibly be good?” ↗

“Os ativistas deveriam estar pressionando para que mais moderados aconselhem o presidente, não menos. Como poderia ser bom ter só extremistas aconselhando ele?”

Quatro meses depois, o mesmo raciocínio produz o ato oposto, a renúncia por causa de Paris citada acima. E em novembro de 2017 vem uma posição precoce contra arruinar alguém por um único comentário, um primeiro sinal da cruzada pela liberdade de expressão que vem por aí:

“Do you really believe that someone’s life should be ruined if they make a single offensive comment for which they then sincerely apologize?” ↗

“Você realmente acredita que a vida de alguém deveria ser arruinada se essa pessoa faz um único comentário ofensivo do qual depois se desculpa com sinceridade?”

Autorrevelação: colapso populacional, angústia existencial e o custo do caminho (2016-2017)

As confissões francas destes anos. A preocupação dele com o colapso populacional, à qual voltaria por anos, aparece aqui pela primeira vez, duas vezes:

“Consequences of population implosion greatly underestimated. Upside down demographic pyramid can’t support social services.” ↗

“As consequências da implosão populacional são muito subestimadas. Uma pirâmide demográfica de cabeça para baixo não consegue sustentar os serviços sociais.”

“The world’s population is accelerating towards collapse, but few seem to notice or care” ↗

“A população mundial está acelerando em direção ao colapso, mas poucos parecem notar ou se importar”

O lado filosófico e existencial dele: a literatura como espelho da condição humana, o custo mental de pensar no futuro e uma humildade diante de como somos pequenos na escala de tempo cósmica.

“Have recently come to appreciate the awesome, absurdist humor of Waiting for Godot. We so often wait, without knowing why, when or where.” ↗

“Passei a apreciar recentemente o humor absurdo e incrível de Esperando Godot. Muitas vezes esperamos sem saber por quê, quando ou onde.”

“Occasional existential dread is inevitable if you think at all about the future” ↗

“Uma angústia existencial de vez em quando é inevitável se você pensa minimamente no futuro”

“A reminder of the youth of our 10,000 year (to be generous) civilization. We are not even a flash in the pan compared to the 4,500,000,000 year age of Earth.” ↗

“Um lembrete da juventude da nossa civilização de 10.000 anos (para ser generoso). Não somos nem um lampejo comparados aos 4.500.000.000 de anos de idade da Terra.”

A reflexão dele sobre a finitude cósmica e o sentido (provocada por A última pergunta, de Asimov) e a visão do eu como um padrão em evolução, que tem a ver com o que ele pensa sobre a Neuralink e a consciência:

“If heat death of the universe is the destination, it really is all about the journey” ↗

“Se o destino é a morte térmica do universo, o que importa mesmo é a jornada”

“What “you” are is an evolving, mind-body pattern, but there’s still a core youness that holds true over time.” ↗

“‘Você’ é um padrão mente-corpo em evolução, mas ainda existe um núcleo de ‘você-idade’ que se mantém ao longo do tempo.”

As confissões mais cruas destes anos. Ele dá nome ao custo pessoal do trabalho, assume o sofrimento como autoimposto, diz que agiu pela missão e não pelo dinheiro mesmo com cerca de 90% de chance esperada de fracasso, e expõe um credo sobre persistência e amizade:

“The reality is great highs, terrible lows and unrelenting stress. Don’t think people want to hear about the last two.” ↗

“A realidade são grandes altos, baixos terríveis e estresse implacável. Acho que as pessoas não querem ouvir falar dos dois últimos.”

“If you buy a ticket to hell, it isn’t fair to blame hell …” ↗

“Se você compra uma passagem para o inferno, não é justo culpar o inferno…”

“Thought 90% prob of losing it all (almost did many times), but it was the only chance.” ↗

“Achei que havia 90% de chance de perder tudo (quase perdi muitas vezes), mas era a única chance.”

“Don’t give up if the cause is important enough, even if you believe you are walking into doom. Good friends really matter.” ↗

“Não desista se a causa for importante o bastante, mesmo que você ache que está caminhando para a ruína. Bons amigos importam muito.”

E a razão mais profunda que ele dá para os projetos ambiciosos: a vida precisa de motivos que inspirem, não só de problemas para resolver.

“Our existence cannot just be about solving one miserable problem after another. There need to be reasons to live.” ↗

“Nossa existência não pode ser só resolver um problema miserável atrás do outro. Precisa haver motivos para viver.”

Conexões

  • Risco existencial da IA: o período em que a preocupação vira programa: as cartas de 2015 sobre segurança e armas autônomas e “Financiando pesquisa em segurança de inteligência artificial”, a fundação da OpenAI, o motivo do “controle… por um pequeno número de humanos” e as frases de 2017 “Muito mais risco do que a Coreia do Norte”, “regular IA e robótica como fazemos com comida, remédios, aviões e carros” e a da Terceira Guerra Mundial.
  • Simbiose entre humanos e IA / Fusão com a IA: a gênese da salvaguarda da Neuralink: “Criar uma neural lace… para alcançar a simbiose com as máquinas” (2016) e “evitar que a IA se torne outra coisa” (2017).
  • Hipótese da simulação: a origem em forma de tuíte da crença pela qual ele é mais citado: “São simulações até o fim”, o argumento da velocidade da luz e o raciocínio dos níveis aninhados e do “mais divertido”.
  • Colonização de Marte: a doutrina de sobrevivência baseada no paradoxo de Fermi (“civilizações de um planeta só extintas… mil para um”), “Marte é crucial para a sobrevivência a longo prazo da humanidade” e os enquadramentos de custo acessível e de inspiração.
  • Missão de energia sustentável: a crítica aos subsídios dos combustíveis fósseis, o raciocínio do ciclo do carbono e do pico de temperatura, o enquadramento libertário do imposto sobre carbono e a renúncia por causa da saída de Paris.
  • Direção autônoma: a meta de 2015 de “autonomia total generalizada” e a previsão de que a autonomia segura pode vir a proibir a direção humana.
  • Primeiros princípios: o raciocínio da terceira lei de Newton e do ciclo do carbono, a “física como… algoritmos de compressão”, “O preço de uma ação representa fluxos de caixa futuros ajustados ao risco”, a reutilização como norma e a epistemologia de ir ao material-fonte e de ajustar a crença à evidência.
  • Absolutismo da liberdade de expressão: a posição de novembro de 2017 contra o cancelamento, por proporcionalidade, que antecede a cruzada da era do Twitter.
  • Curiosidade e busca da verdade: o tom que exige evidências (pirâmides, “escolha a ciência”, “na proporção inversa da evidência”) e a máxima de ler o material-fonte.
  • The Boring Company: o raciocínio dimensional de túneis contra carros voadores e o tuíte impulsivo de origem, “simplesmente começar a cavar”.
  • Elon Musk: o registro em primeira pessoa da entidade em 2015-2017: o movimento político de participar e depois renunciar, a preocupação com o colapso populacional e as autorrevelações mais cruas sobre o custo do caminho.